Domingo, 23 de Dezembro de 2012 - 11h32

Educação é destaque na bolsa

Veículo: Diário do Comércio 

Data da publicação: 23.12.2012

No fim do ano passado, dos 23,2 milhões de brasileiros com idades entre 18 e 24 anos, apenas 3,2 milhões estavam no ensino superior – o equivalente a 13,8%, percentual bem inferior ao registrado em países como Argentina (35%), Estados Unidos (60%) e Coreia do Sul (85%). Na faixa etária de 25 a 39 anos, existiam 20 milhões de pessoas com ensino médio completo (aptos, portanto, a frequentar uma faculdade) fora das turmas de graduação. 

Os números, compilados pelo Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior no Estado de São Paulo (Semesp) com base em informações do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), comprovam o alto potencial de crescimento das faculdades privadas no País, principalmente considerando as dificuldades de ampliação da rede pública. E é esse extenso campo que tem atraído a atenção dos investidores e garantido o bom desempenho das empresas do setor na bolsa. Para especialistas, a tendência continua positiva em médio prazo, mas apostar nesse segmento exige atenção a alguns riscos.

Presentes na bolsa desde 2007, as três maiores entre as cinco universidades listadas – Anhanguera, Kroton Educacional e Estácio Participações – veem seus papéis valorizarem-se neste ano: para as ações ordinárias, as altas de janeiro até 20 de dezembro foram próximas de 74% para Anhanguera, de 150% para Kroton e de 130% para a Estácio. O Ibovespa, índice de referência, subiu só 8% (a comparação é válida apesar de os papéis não estarem no índice).

Em valor de mercado (preço das ações multiplicado pela quantidade de papéis em circulação), a Kroton foi o destaque do ano, avançando perto de 230% até o início de dezembro, segundo a empresa de informações financeiras Economatica. As três estão no Novo Mercado, em que só são negociadas ações ON, com direito a voto. Esse segmento de negociação é o que têm as mais rígidas regras de relacionamento com os acionistas, o que é uma vantagem.

Números positivos

Em termos financeiros, as três empresas igualmente apresentam bons resultados. De janeiro a setembro, os três grupos tiveram alta de lucro e de receitas com mensalidades. A Anhanguera lucrou R$ 134,5 milhões (alta de 86,77% sobre igual intervalo de 2011), com receita de R$ 1,244 bilhão (avanço de 41,02%). No grupo Kroton, o desempenho também foi positivo, com lucro de R$ 178,1 milhões (mais 298,9%) e receita de R$ 1,04 bilhão (aumento de 93,7%). A Estácio  fechou os nove primeiros meses do ano com ganho de R$ 94,78 milhões (alta de 39,4%) e receita de R$ 1,021 bilhão (expansão de 19,6%).

O ano de 2012, de provável baixo crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), foi de aumento constante da base de alunos dos grupos de ensino superior, que se expandem aproveitando a possibilidade que integrantes da classe C hoje têm para ingressar no ensino superior. A Anhanguera, no fim do terceiro trimestre, contabilizava 441,1 mil matriculados no fim de setembro. Kroton e Estácio fecharam o período com mais alunos: 411 mil, com alta de 20%, e 284,4 mil, com avanço de 14,8%, respectivamente.

A observação de todos esses números poderia levar os investidores a decidir apressadamente pela compra dos papéis das empresas. Afinal, elas têm vários atrativos: bom potencial de crescimento, ritmo de avanço muito mais acelerado que o do PIB e resultados financeiros favoráveis, que sugerem gestão adequada das redes. Os riscos do investimento, no entanto, não devem ser ignorados.

O principal deles é a relativamente elevada participação de programas oficiais de incentivo à formação universitária na receita das universidades. Trata-se das bolsas de estudo concedidas pelo sistema ProUni e dos créditos do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) – este, mais recente, especialmente importante para a expansão das universidades particulares nos últimos anos.

De fato, os balanços do terceiro trimestre de 2012 mostram o peso do Fies no faturamento. A dependência maior está na Kroton Educacional: 43,2% da base de alunos do ensino presencial estudam com os recursos do Fies. Na Anhanguera e na Estácio, o percentual é próximo a 14% da base de alunos. O Fies é considerado um programa já consolidado, mas por ter origem governamental tende a aumentar os riscos. Não que existam sinais de mudanças de regras, mas como o governo tem aumentado o grau de interferência na economia (exemplos claros são a postergação do necessário reajuste dos preços dos combustíveis, que afeta as receitas da Petrobras, e a renovação antecipada das concessões de energia elétrica), recomenda-se cautela na compra das ações.

Limite de crescimento

Na avaliação do economista da corretora Souza Barros Clodoir Vieira, parte do risco do setor de educação está relacionado a aspectos de longo prazo. "É fato que nos últimos anos a demanda por cursos universitários aumentou muito, mas esse movimento deve ter um limite", afirma, destacando que a expansão tende a se manter até 2014 ou 2015. "A partir de então, o mercado deve se estabilizar, ainda mais considerando o envelhecimento da população e a consequente diminuição do número de universitários", completa. Vieira enxerga boas oportunidades de investimento no setor por pelo menos dois anos, mas observa que valorizações tão expressivas quanto as registradas em 2012 dificilmente se repetirão.

A disputa entre as empresas pelos alunos, embora continue merecendo atenção do investidor (pode reduzir as receitas), hoje está menos acirrada. De qualquer forma, é um risco que deve ser ponderado, assim como os níveis de inadimplência. No setor educacional, a inadimplência é um tema particularmente relevante, porque a legislação tira das empresas tradicionais instrumentos de cobrança. Elas não podem punir o aluno devedor com proibição de provas ou retenção de documentos. No setor, segundo o Semesp, a inadimplência medida por atrasos superiores a 90 dias está em 8,46%, acima da taxa nacional (7,5%).

Aprendizado constante

Em 1930, o conhecimento humano dobrava em um período de 30 anos. Em 1970, esse intervalo caiu para apenas sete anos. Em 2010, esse conhecimento dobrava a cada impressionantes 11 horas; hoje, já devem ser três horas. Os números, de pesquisadores da Universidade da Califórnia Berkeley, sugerem a necessidade cada vez maior de as pessoas se aprimorarem, diz o presidente da Associação Brasileira de Ensino a Distância (Abed), Frederic Litto. Nesse contexto, cabe às instituições de ensino superior investir na criação de modelos adequados a essa demanda potencial.

 
"As escolas de ensino superior têm hoje uma grande oportunidade para oferecer conhecimento a pessoas já formadas e até pós-graduadas que estão há tempos no mercado de trabalho", afirmou Litto para uma plateia de analistas de mercado em um seminário sobre as perspectivas para o setor de educação promovido pela Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais (Apimec) e pela BM&FBovespa. "Afinal, entre as pessoas já graduadas ninguém pode ficar mais que 12 meses sem um curso de atualização."
 
Considerando que o mercado potencial para esse tipo de ensino está concentrado em profissionais já atuantes, a saída pode estar, de acordo com Litto, no ensino a distância, também conhecido como não presencial. O conceito fundamental prevê que as atividades de ensino e aprendizagem sejam desenvolvidas majoritariamente (ou exclusivamente) sem que alunos e professores estejam  no mesmo lugar e na mesma hora. Ele envolve aulas pela internet ou por videoconferência e envio de material didático pelo correio. No Brasil, diz Litto, o potencial é crescente – pode ser uma fonte a mais de receitas das escolas.

 

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