Quinta-feira, 19 de Março de 2026 - 14h43

Semesp apresentou, nesta quinta (19), o Mapa do Ensino Superior no Brasil 2026

Publicação mostra crescimento moderado e expõe desafios do setor, com evasão elevada e baixa conclusão dos cursos

O economista Rodrigo Capelato, diretor-executivo do Semesp, entidade que representa mantenedoras de ensino superior no Brasil, apresentou os principais dados da 16ª edição do Mapa do Ensino Superior no Brasil, nesta quinta-feira (19/03), durante evento híbrido realizado na sede da entidade, em São Paulo, e também via transmissão online. 

A 16ª edição do Mapa do Ensino Superior no Brasil aponta que, após anos de forte expansão, o ensino superior brasileiro passa por uma fase de crescimento mais moderado, influenciado principalmente pela desaceleração da educação a distância (EAD) e também pelas mudanças tecnológicas, novas demandas do mercado de trabalho e limitações das políticas públicas de financiamento estudantil. 

O capítulo Brasil revela um setor com forte predominância de instituições privadas e desafios estruturais. De acordo com os dados, a educação a distância se consolidou como principal modalidade de ensino, enquanto o acesso dos jovens ao ensino superior segue limitado. O setor também apresenta sinais de estagnação nas políticas de financiamento, altas taxas de evasão, especialmente na EAD, baixa taxa de conclusão e crescente concentração de matrículas em grandes grupos educacionais, o que amplia o debate sobre acesso, permanência, qualidade e sustentabilidade do ensino superior no país. 

Já o capítulo especial desta edição, O Retrato das Organizações Acadêmicas da Rede Privada no Brasil, aprofunda a análise sobre a configuração institucional do setor privado, composto por centros universitários, faculdades e universidades, e mostra a hegemonia dos centros universitários, a perda de espaço das faculdades e o uso intensivo da EAD pelas universidades. Esses resultados evidenciam mudanças no modelo institucional do ensino superior brasileiro e trazem à tona desafios regulatórios, econômicos e acadêmicos, especialmente no que diz respeito à sustentabilidade do sistema, à qualidade da formação e ao papel estratégico das diferentes organizações acadêmicas no desenvolvimento regional e nacional. 

Nesse contexto, as transformações observadas levantam questionamentos sobre a descaracterização dos papéis das organizações acadêmicas. Faculdades, centros universitários e universidades possuem funções distintas, mas a aproximação entre esses modelos pode reduzir a diversidade institucional e impactar a qualidade da formação.

 O Mapa do Ensino Superior no Brasil é uma publicação anual produzida pelo Instituto Semesp, centro de inteligência analítica e levantamento de dados estatísticos educacionais, e reúne os principais indicadores do setor, como matrículas, instituições, ingressantes, cursos, perfil dos estudantes, financiamento estudantil e tendências do ensino superior nas redes privada e pública. 

Veja abaixo alguns destaques do Mapa do Ensino Superior no Brasil 2026 

Principais destaques do Capítulo Brasil
A 16ª edição do Mapa do Ensino Superior no Brasil mostra que o ensino superior brasileiro voltou a crescer entre 2023 e 2024, ainda que em ritmo mais moderado do que nos anos anteriores. O país alcançou 10.227.266 estudantes matriculados, um aumento de 2,5% no período. A rede privada continua predominante no setor e reúne 8.162.199 matrículas, o equivalente a 79,8% do total, enquanto a rede pública possui 2.065.067 alunos, cerca de 20% das matrículas. O crescimento foi impulsionado principalmente pela rede privada, que registrou aumento de 3,2% nas matrículas entre 2023 e 2024, enquanto a rede pública apresentou leve retração de 0,2%. 

Pela primeira vez na série histórica, a educação a distância superou o volume de matrículas presenciais, concentrando 50,7% dos estudantes do país. Ainda assim, o crescimento da modalidade perdeu fôlego: após a forte expansão observada no período pós-pandemia, a EAD avançou 5,6% em 2024, bem abaixo dos patamares anteriores. O ensino presencial, por sua vez, segue em processo de estabilização, com queda discreta de 0,5% nas matrículas.

 Na última década, a expansão da modalidade a distância foi expressiva: o número de estudantes matriculados em cursos EAD cresceu 287%, sendo que 95,9% dessas matrículas estão concentradas na rede privada. Em 2024, 66,8% dos novos alunos ingressaram em cursos EAD, enquanto 33,2% optaram por cursos presenciais. 

Ainda que o volume total de alunos tenha crescido, o acesso dos jovens segue limitado. A taxa de escolarização líquida nacional permaneceu baixa, em 20,8%, praticamente estagnada em relação ao ano anterior e distante das metas históricas da política educacional brasileira. Essa estagnação é indicativa de que a ampliação das matrículas, puxada sobretudo por adultos na EAD, pouco impacta a entrada de jovens de 18 a 24 anos, público-alvo prioritário para o avanço da escolarização superior no país. Veja mais informações em Perfil dos estudantes

O resultado é um cenário em que o ingresso do público mais jovem permanece como desafio, seja pela necessidade de políticas públicas mais eficazes, seja pelas dinâmicas próprias de organização e expansão do setor. 

Número de IES
O Brasil possui 2.561 instituições de ensino superior (IES), sendo 2.244 privadas e 317 públicas. A rede privada representa 87,6% das instituições do país. Entre 2023 e 2024, houve uma redução de 0,7% no número total de instituições, com queda de 0,9% na rede privada e crescimento de 0,3% na rede pública. Entre as instituições privadas, 58% são com fins lucrativos e 29,6% são sem fins lucrativos. Veja mais informações em Concentração de matrículas e Capítulo especial O retrato das organizações acadêmicas da rede privada no Brasil

Número de docentes
Com base no total de matrículas e no número de docentes registrados, o ensino presencial da rede privada apresenta uma média aproximada de 22 estudantes por docente. Na educação a distância, esse número sobe para cerca de 177 estudantes por docente. Essa diferença reflete menos uma comparação direta de carga pedagógica e mais um modelo organizacional distinto. Na EAD, o trabalho docente é fortemente dividido: os professores atuam principalmente na elaboração e supervisão dos conteúdos, enquanto a mediação cotidiana com os estudantes é, em grande parte, realizada por tutores, que exercem funções pedagógicas relevantes, mas não são contabilizados como docentes nas estatísticas oficiais. 

Perfil dos estudantes
Os dados indicam uma mudança importante no perfil do estudante do ensino superior brasileiro e reforçam que os mais jovens ainda preferem cursos presenciais, enquanto a EAD atende principalmente ao público adulto que busca conciliar os estudos com a vida profissional. 

Nos cursos presenciais, o público é majoritariamente jovem: 61,9% dos estudantes têm até 24 anos. Já na educação a distância, a predominância é de alunos adultos. Na modalidade EAD, 67,3% dos estudantes têm 25 anos ou mais, demonstrando que a modalidade tem sido utilizada principalmente por pessoas que retornam aos estudos ou ingressam mais tarde na graduação. 

Apesar do crescimento das matrículas, o acesso de jovens ao ensino superior ainda é limitado. Em 2024, a taxa de escolarização líquida no Brasil atingiu apenas 20,8% da população entre 18 e 24 anos, índice praticamente estagnado em relação aos anos anteriores e distante das metas da política educacional brasileira. 

Na distribuição por sexo dos estudantes do ensino superior, as mulheres continuam sendo maioria. Elas representam 59,5% das matrículas, enquanto os homens correspondem a 40,5%. 

Concentração de matrículas
O Mapa do Ensino Superior no Brasil também aponta uma crescente concentração de estudantes em grandes grupos educacionais. Apesar de representarem apenas uma pequena parcela das instituições, mantenedoras de grande e mega portes concentram a maior parte das matrículas do ensino superior brasileiro. Apenas 1,4% das mantenedoras detêm 47,1% de todos os estudantes do país. Na rede privada, essa concentração é ainda maior: 1,2% das instituições reúnem 55,1% das matrículas. 

Financiamento estudantil
O acesso ao ensino superior por meio de programas de financiamento e bolsas mostra sinais de estagnação. O percentual de ingressantes com financiamento do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) continua praticamente estável e registrou pequena queda de 0,2 ponto percentual em 2024, indicando que o programa não tem ampliado significativamente o número de novos beneficiários. Entre 2015 e 2025, foram firmados aproximadamente 1,13 milhão de contratos do Fies. 

O financiamento reembolsável oferecido pelas próprias instituições também apresentou pouca variação, com aumento de apenas 0,2 ponto percentual no período mais recente. Já entre os programas de bolsas, o percentual de ingressantes com Programa Universidade para Todos (Prouni) registrou leve crescimento de 0,2 ponto percentual. Por outro lado, o percentual de calouros com bolsas concedidas diretamente pelas instituições apresentou queda mais acentuada, passando de 34,4% para 32,8%. 

Além do financiamento público, o estudo aponta mudanças na dinâmica das bolsas e financiamentos oferecidos pelas próprias instituições de ensino superior. O percentual de ingressantes com financiamento reembolsável ofertado pelas instituições apresentou leve aumento de 0,2 ponto percentual no período mais recente analisado, enquanto a participação de bolsas institucionais registrou queda entre os calouros. 

Evasão por modalidade
A evasão no ensino superior brasileiro continua elevada e apresenta diferenças importantes entre as modalidades. Em 2024, a taxa de evasão total nos cursos presenciais foi de 24,8%, sendo 26,6% na rede privada e 21,4% na rede pública.

Na educação a distância, os índices são ainda mais altos. A evasão total na modalidade EAD chegou a 41,6% em 2024, com destaque para a rede privada, que registrou taxa de 41,9%. Já a rede pública apresentou 32,2%. Esses números mostram que a retenção de estudantes continua sendo um desafio mais intenso na educação a distância.

Taxa de conclusão por modalidade

Os indicadores de trajetória dos estudantes também mostram diferenças entre as modalidades de ensino. Considerando os ingressantes de 2020 e o ciclo analisado até 2024, a taxa de conclusão acumulada é de cerca de 18,7% nos cursos presenciais e de apenas 8,3% nos cursos EAD na rede privada. 

Na rede pública, a conclusão acumulada é um pouco mais elevada: 35,5% no presencial e 12,5% na educação a distância. No total do setor, a taxa de conclusão acumulada é de 13,5% na EAD e 25,3% nos cursos presenciais, evidenciando diferenças importantes no percurso acadêmico dos estudantes entre as duas modalidades.

Carreira e expectativas profissionais

O Mapa do Ensino Superior no Brasil também analisou as expectativas profissionais dos estudantes. Entre alunos de cursos presenciais da rede privada, a maioria pretende ingressar diretamente no mercado de trabalho após a graduação, principalmente por meio de vínculos formais.

 Entre estudantes de centros universitários, 35,9% afirmam que pretendem ingressar no mercado de trabalho com vínculo CLT, enquanto 30,4% demonstram interesse em empreender e abrir o próprio negócio ou startup. Outros 19,6% indicam intenção de seguir carreira acadêmica e atuar em pesquisa. 

Nas faculdades, 31,4% dos estudantes pretendem ingressar no mercado de trabalho formal (CLT) e 31% indicam interesse em empreender. Já entre alunos de universidades privadas, a carreira acadêmica aparece com maior destaque, com 31% demonstrando intenção de seguir na pesquisa ou na docência. 

Distribuição regional
A região Sudeste continua sendo o principal polo do ensino superior brasileiro, concentrando cerca de 4,52 milhões de estudantes, o equivalente a aproximadamente 44,2% das matrículas do país. Em todas as regiões do país, a rede privada possui predominância, com participação superior a 70% das matrículas.

Distribuição regional das matrículas: 

Sudeste: 4.518.942 matrículas
Nordeste: 2.186.521 matrículas
Sul: 1.750.161 matrículas
Centro-Oeste: 905.093 matrículas
Norte: 863.969 matrículas 

Áreas de formação com maior número de estudantes
A área com maior número de estudantes no ensino superior brasileiro é Negócios, Administração e Direito, com 2,44 milhões de matrículas. 

Outras áreas com grande número de estudantes incluem Saúde e Bem-Estar, Educação e Engenharia, Produção e Construção. A área de Computação e Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) apresentou um dos maiores crescimentos, refletindo a forte demanda por profissionais ligados à transformação digital.

Principais destaques do Capítulo especial

O retrato das organizações acadêmicas da rede privada no Brasil

O retrato das organizações acadêmicas da rede privada no Brasil, capítulo especial da 16ª edição do Mapa do Ensino Superior no Brasil, analisa a configuração institucional do ensino superior privado brasileiro, composto por faculdades, centros universitários e universidades, e suas transformações na última década. 

A análise mostra que a expansão do setor foi acompanhada por uma reorganização das instituições, com crescimento dos centros universitários, redução das faculdades e maior utilização da educação a distância pelas universidades. Embora as faculdades ainda sejam maioria em número de instituições, elas vêm perdendo participação no sistema. Em 2024, o país registrou 1.745 faculdades privadas, 409 centros universitários e 90 universidades privadas. 

De acordo com os dados, o Brasil possui 2.244 instituições privadas de ensino superior. Por tipo de instituição, embora estejam longe de representar a maioria, já que as faculdades somam mais de quatro vezes o número de centros universitários, os centros universitários apresentaram o maior crescimento no comparativo dos últimos dez anos (2014–2024): o avanço foi de 201%, enquanto o número de faculdades recuou 5,7% no mesmo período. No mesmo intervalo, de 2014 a 2024, o total de instituições de ensino superior da rede privada cresceu 8,4%, e o número de universidades aumentou 7,1%. 

Essa transformação também se reflete nas matrículas. Em 2014, as faculdades concentravam 36,0% das matrículas da rede privada; em 2024, essa participação caiu para 12,4%. Em contrapartida, os centros universitários ampliaram sua participação de 21,6% para 42,0% das matrículas, consolidando-se como principal vetor de crescimento do ensino superior privado na última década.

O estudo também identifica um movimento de transformação institucional. Entre 2014 e 2024, 267 faculdades e cinco universidades se transformaram em centros universitários, enquanto sete centros universitários passaram a universidades. 

As transformações observadas no setor levantam questionamentos sobre a possível descaracterização dos papéis tradicionais das organizações acadêmicas. Em sua concepção, faculdades, centros universitários e universidades possuem funções distintas no sistema, com diferentes níveis de autonomia, complexidade acadêmica e atuação em ensino, pesquisa e extensão. No entanto, o avanço dos centros universitários, a redução do espaço das faculdades e o uso intensivo da educação a distância pelas universidades indicam uma aproximação entre esses modelos institucionais, com maior padronização das ofertas e estratégias. Esse movimento pode reduzir a diversidade institucional e desafiar o equilíbrio do sistema, ao mesmo tempo em que impõe novos desafios para garantir identidade acadêmica, qualidade da formação e aderência às finalidades originais de cada tipo de instituição. 

Especialistas ouvidos no capítulo especial apontam que a reconfiguração das organizações acadêmicas na rede privada reflete um ambiente mais competitivo, marcado pela busca por maior autonomia acadêmica e ganho de escala, especialmente com o crescimento dos centros universitários em detrimento das faculdades. Ao mesmo tempo, destacam preocupações com a sustentabilidade econômica do setor, a qualidade da formação e a preservação da diversidade institucional, especialmente diante da crescente concentração de matrículas e da padronização dos modelos educacionais. 

Mais informações para a imprensa

Roseli Ramos
Assessora de Comunicação do Semesp

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